No artigo anterior “Controle Algorítmico pelo Governo” demonstrei a parceria de sucesso entre STF/PT para sufocar a liberdade individual do brasileiro. Isso é só a ponta do iceberg. É o que qualquer pessoa com visão e alguns neurônios consegue enxergar e raciocinar.
Mais abaixo da superfície há muito networking para manter o establishment. Uma delas é a parceria STF/USP. Uma elite social, econômica e política que se aparelhou do Estado para ditar os rumos do país.
Para entender como a máquina funciona, é preciso olhar para as engrenagens invisíveis: as amizades forjadas na juventude e a sociedade secreta Burschenschaft (também denominada bucha).
Antes de continuar, sugiro fortemente que o leitor assista ao documentário “O Grupo que Construiu o Sistema nas SOMBRAS | Bucha/Burschenschaft” de autoria do “Estúdio 5º Elemento” no canal do YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=EwX4ZIXL6rs
Pois bem.
A Bucha, sociedade secreta fundada em 1831 pelo professor Julius Frank, é o mito fundacional da elite jurídica paulista. Inspirada nas sociedades estudantis alemãs, ela funcionava como uma rede de auxílio mútuo e formação de lideranças.
Os seus membros (“irmãos”) juravam lealdade mútua e comprometiam-se a ajudar uns aos outros na ascensão aos cargos públicos. A história da República Velha é, em grande parte, a história da Bucha.[1]
Embora tenha perdido sua estrutura formal e secreta após a Era Vargas (que teria dito “não se governa o Brasil sem essa gente”), o ethos da Bucha sobrevive. Ele se transmutou em um “espírito de corpo” (esprit de corps) inquebrantável. O túmulo de Julius Frank, localizado dentro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e vigiado por estátuas de corujas, permanece um local de peregrinação e simbolismo.
Hoje, a função de rede de proteção é exercida de forma mais discreta, mas igualmente eficaz, pela Associação dos Antigos Alunos (AAA). Essa entidade mantém o cadastro, organiza a filantropia (“Adote um Aluno”) e garante que o networking intergeracional continue ativo. Um telefonema de um “antigo aluno” para outro, mesmo que não se conheçam, tem um peso institucional que abre portas em Brasília e na Faria Lima.[2]
A AAA funciona como o sistema nervoso central desta rede, garantindo que o “espírito das Arcadas” se traduza em capital político concreto. Embora o estatuto da AAA centralize a administração em São Paulo[3], a associação possui uma estrutura de poder descentralizada, operando através de “representações” que funcionam como embaixadas de influência.
Nesse contexto, a representação de Brasília funciona como um “Hub do Poder”.É a “joia da coroa” da influência externa da AAA. Não é apenas um escritório, mas um lobby institucionalizado que conecta a academia paulista aos Tribunais Superiores.
Já a representação do Rio de Janeiro mantém a tradição dos antigos bacharéis que serviram a corte imperial e a velha república. Foca em eventos culturais e na manutenção de laços com a elite jurídica carioca (IAB e FGV-Rio).
A rede também possui nós informais na Europa (especialmente Portugal e Alemanha) e EUA, facilitando o trânsito acadêmico de pós-graduandos e funcionando como pontos de apoio para a diáspora franciscana.
Com efeito, a Faculdade de Direito da USP, universalmente conhecida como “SanFran” ou “As Arcadas”, não é meramente uma instituição de ensino superior; é a coluna vertebral da elite burocrática e política do Brasil. Fundada em 1827, poucos anos após a independência, a instituição foi concebida não apenas para ensinar leis, mas para formar a classe dirigente de uma nação nascente.
Quase dois séculos depois, essa missão original permanece inalterada, embora seus mecanismos tenham se tornado infinitamente mais complexos e capilarizados. Ao adentrar o pátio do antigo convento franciscano no centro de São Paulo, o estudante não ingressa apenas em um curso de graduação, mas é iniciado em uma irmandade de poder que transcende governos, ideologias e ciclos econômicos.
Este artigo disseca a arquitetura contemporânea dessa influência. Ao contrário de análises superficiais que se limitam a contar diplomas, esta investigação propõe uma leitura estrutural: a SanFran opera como um “Partido de Estado” informal, uma entidade suprapartidária que fornece a gramática do poder (o Direito), os operadores do poder (Juízes, Ministros, Advogados) e a ideologia de manutenção do poder (o Estado Democrático de Direito como dogma gerido por iluminados).
A análise abrange a ocupação física e intelectual dos três poderes da República, a simbiose com o grande capital através das bancas de advocacia corporativa (“Big Law”) e os mecanismos de reprodução social que garantem que, independentemente de quem ganhe as eleições, a “República dos Bacharéis” permaneça no comando.
A tese central aqui defendida é a de que a influência da SanFran não é acidental ou meritocrática no sentido puro; é o resultado de uma rede deliberada de sociabilidade, mentoria e ocupação de espaços estratégicos, cimentada por tradições seculares (como a “Bucha”) e institucionalizada através de parcerias formais e informais entre a Academia e o Estado.
O Poder Judiciário: A Colonização das Cortes Superiores
A hegemonia da USP no sistema de justiça brasileiro é absoluta. Não se trata apenas da presença numérica, mas da imposição de uma cultura jurídica específica – muitas vezes liberal nos costumes, estatista na economia e garantista no processo penal – que molda a jurisprudência nacional. As Cortes Superiores, em Brasília, funcionam muitas vezes como departamentos avançados do Largo de São Francisco.
O Supremo Tribunal Federal (STF) é o lócus onde a influência da USP se manifesta de forma mais crua e decisiva. A corte não apenas julga; ela governa. E quem governa a corte são, majoritariamente, egressos das Arcadas. A análise dos perfis dos ministros revela um padrão de ascensão que combina excelência acadêmica com astúcia política, características cultivadas nos corredores da faculdade.
A Era Toffoli: O Operador Político-Jurídico
José Antônio Dias Toffoli (Turma de 1990) representa uma vertente específica da influência da USP: a advocacia engajada transformada em poder institucional. Sua trajetória desafia a lógica puramente acadêmica, baseando-se na construção de redes de confiança política.
- Origem e Ascensão: Toffoli iniciou sua vida pública no movimento estudantil e na advocacia eleitoral para o Partido dos Trabalhadores (PT). Sua habilidade técnica em navegar nos meandros da legislação eleitoral chamou a atenção da liderança partidária, levando-o à chefia da Advocacia-Geral da União (AGU) no governo Lula.[4][5]
- Mecanismo de Influência: A indicação de Toffoli para o STF não foi baseada em títulos de doutorado (que ele não possui, diferentemente de seus pares acadêmicos), mas na “confiance” política e na capacidade de articulação. Uma vez no tribunal, Toffoli tornou-se um “hub” de conexões. Sua presidência no STF foi marcada por uma aproximação pragmática com o estamento militar e com o Congresso, atuando como um “poder moderador” informal.
- Legitimação Acadêmica: Curiosamente, após sua ascensão ao poder, a USP moveu-se para “abraçar” o filho pródigo. Toffoli foi agraciado com a Medalha Armando de Salles Oliveira, a mais alta honraria da universidade, e integrou o Conselho Consultivo do Hospital das Clínicas.[6][7] Esse movimento demonstra como a SanFran atua para cooptar e legitimar aqueles que detêm a caneta, garantindo que o poder, mesmo quando de origem política, retorne à órbita da universidade.
Alexandre de Moraes: O Estado Sou Eu (e a USP também)
Alexandre de Moraes (Turma de 1990, Doutor e Livre-Docente) é a antítese e o complemento de Toffoli. Contemporâneo de turma, Moraes seguiu o caminho da academia rigorosa dentro do Departamento de Direito do Estado da USP, combinada com uma carreira executiva de “mão de ferro” na segurança pública.
- Perfil Acadêmico-Político: Moraes é um produto puro da elite jurídica paulista. Sua carreira acadêmica na USP, onde é Professor Associado, confere-lhe uma autoridade doutrinária que ele exerce sem hesitação no tribunal.[8] Sua tese de doutorado e seus manuais de Direito Constitucional são citados como se fossem a própria lei.[9]
- A Conexão Temer: A ascensão de Moraes ao STF é o exemplo perfeito do “networking” uspiano. Foi indicado por Michel Temer (outro constitucionalista da USP), com quem partilha não apenas a filiação partidária (à época, PSDB/PMDB), mas uma visão de mundo moldada pelo constitucionalismo de 1988.[10][11]
- Atuação no TSE: Durante sua presidência no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Moraes aplicou conceitos de “democracia militante” que são debatidos nas salas de aula da USP. Sua equipe de gabinete é frequentemente composta por seus ex-alunos e orientandos, criando um ciclo fechado onde a teoria acadêmica vira prática judicial imediatamente. A USP, por sua vez, o celebra como o guardião da democracia, reforçando sua legitimidade externa em momentos de crise política.[12]
O Legado de Lewandowski e o Decanato de Celso de Mello
Ainda que aposentados, Ricardo Lewandowski e Celso de Mello deixaram uma marca indelével. Celso (Turma de 1969), o “decano”, moldou a linguagem e a postura litúrgica do tribunal por décadas.[13] Lewandowski (Professor Titular da USP), agora no Ministério da Justiça, exemplifica a “porta giratória” de luxo: do tribunal para o ministério, sempre mantendo a cátedra na SanFran como ponto de retorno e legitimação.[14] A presença de Lewandowski no Executivo (Ministério da Justiça) garante que a visão jurídica da USP continue a influenciar a política de segurança e justiça do país, mesmo fora do STF.
Superior Tribunal de Justiça (STJ): A Trincheira da Uniformização
Se o STF é o palco das grandes disputas constitucionais, o STJ é a casa de máquinas do direito brasileiro. Aqui, a influência da USP é menos midiática, mas talvez mais profunda, pois define a interpretação da lei federal que afeta a vida cotidiana de empresas e cidadãos.[15]
- Maria Thereza de Assis Moura: Ministra e ex-Presidente do STJ (2022/2024), é uma figura central. Professora da USP, ela traz para o tribunal o rigor do Processo Penal acadêmico. Sua origem no “Quinto Constitucional” da advocacia (indicada pela OAB) revela a força da advocacia paulista (dominada pela USP) em emplacar seus quadros nas cortes superiores.[16][17] Sua gestão foi marcada pela tecnicidade e pela modernização administrativa, reflexo de sua formação.
- Og Fernandes: ex-Vice-Presidente do STJ (2022/2024), formado em Jornalismo e Direito (pela UFPE/Unicap, mas integrado à elite jurídica nacional que orbita a USP em eventos e doutrina), ele representa a capacidade da rede de expandir-se para além dos seus egressos diretos, cooptando talentos regionais para o “mainstream” jurídico que tem São Paulo como centro gravitacional.[18]
- Ricardo Villas Bôas Cueva: Ministro do STJ, Cueva personifica a elite cosmopolita da USP. Com mestrado em Harvard e doutorado na Alemanha, além da graduação na USP, ele é o representante do Direito Privado sofisticado, essencial para o ambiente de negócios. Sua presença na Corte Especial garante que as disputas empresariais bilionárias sejam julgadas sob a ótica da segurança jurídica e da eficiência econômica, valores caros ao Departamento de Direito Comercial da SanFran.[19][20]
- A “Bancada Paulista”: A composição do STJ revela uma forte presença de paulistas, muitos deles com passagens pela USP ou PUC-SP (que funciona como uma “irmã” na elite jurídica). Ministros como Paulo Dias de Moura Ribeiro reforçam esse contingente.[21] A influência aqui se dá através da doutrina: os livros escritos pelos professores da USP são a base para os votos dos ministros, criando um ciclo de retroalimentação intelectual.
Tribunal Superior do Trabalho (TST): A Justiça Especializada
No TST, a influência da USP compete com escolas tradicionais de Minas Gerais e do Nordeste, mas mantém enclaves estratégicos.
- Doutrina e Pós-Graduação: Muitos ministros, mesmo formados na graduação em outros estados, buscam a pós-graduação na USP para legitimar suas carreiras. A “etiqueta” USP funciona como um selo de qualidade indispensável para a ascensão na magistratura de carreira.
- Ministros Relevantes: Figuras como Ives Gandra da Silva Martins Filho (embora ligado à doutrina conservadora e ao Mackenzie/UnB, é filho de um dos maiores ícones da USP, Ives Gandra Martins, demonstrando a influência dinástica) e outros que transitam nos congressos acadêmicos promovidos pela SanFran.[22]
- O Papel da Academia Trabalhista: O Departamento de Direito do Trabalho da USP (historicamente ligado a nomes como Amauri Mascaro Nascimento) continua a fornecer as bases teóricas para as disputas entre capital e trabalho no TST, influenciando a jurisprudência sobre terceirização, reforma trabalhista e direitos sindicais.[23][24]
Poder Executivo e Legislativo: A USP como Partido de Quadros
A análise da composição dos poderes eleitos revela que a Faculdade de Direito da USP funciona como um celeiro inesgotável de quadros políticos. Diferentemente de partidos políticos que precisam de votos, a “Bancada da SanFran” ocupa o poder através da competência técnica e da indicação política, preenchendo os ministérios, secretarias e assessorias parlamentares.
Historicamente, a USP formou 14 Presidentes da República, uma estatística impressionante que confirma sua vocação de “Escola de Estadistas”.
- Michel Temer (2016-2018): O governo Temer foi, em essência, um governo da Faculdade de Direito da USP. Temer, constitucionalista e professor da casa, cercou-se de juristas de sua confiança. Sua gestão foi marcada pela “juridicização” da política, utilizando o conhecimento das engrenagens legais para sobreviver a crises políticas agudas. A indicação de Alexandre de Moraes para o STF foi o ato final dessa estratégia, garantindo um aliado vitalício na Suprema Corte.[25]
- Fernando Henrique Cardoso: Embora sociólogo, FHC é um “uspiano” arquetípico, cuja base política e intelectual sempre esteve entrelaçada com a elite jurídica da SanFran (como Miguel Reale Jr. e José Carlos Dias).
Ministérios e a Esplanada dos Ministérios
A ocupação da Esplanada é sistemática. Não importa a ideologia do governo, a pasta da Justiça e a área econômica sempre têm o DNA da USP.
- Fernando Haddad (Ministro da Fazenda): Haddad é um caso singular de formação multidisciplinar dentro da USP: graduado em Direito (SanFran), mestre em Economia e doutor em Filosofia. Essa trindade acadêmica o credencia como o interlocutor perfeito entre a política (PT), o mercado (Faria Lima) e a academia. Sua gestão na Fazenda é caracterizada por uma tentativa de conciliar responsabilidade fiscal com agenda social, uma síntese típica do pensamento progressista da USP.[26][27]
- Ricardo Lewandowski (Ministro da Justiça): Sua transição do STF para o Ministério da Justiça no governo Lula III reforça a tese da “missão pública” dos professores da USP. Lewandowski não é apenas um ex-juiz; é um formulador de políticas públicas de segurança e justiça, aplicando no Executivo as teses que defendeu no Judiciário.
- Silvio Almeida (Ministro dos Direitos Humanos): Embora sua graduação seja no Mackenzie, seu doutorado e pós-doutorado na USP (Direito) o inserem na órbita intelectual da universidade, especialmente na ala ligada ao Direito e Antirracismo, demonstrando a capacidade da USP de absorver e projetar novas lideranças intelectuais.[28]
O Legislativo: Deputados e Senadores
No Congresso Nacional, a “Bancada das Arcadas” atua de forma transversal.
- Janaina Paschoal (Ex-Deputada): Sua atuação no impeachment de Dilma Rousseff foi um terremoto político gerado dentro das salas de aula da SanFran.[29] Ao lado de Miguel Reale Júnior (Professor Titular), ela redigiu a peça jurídica que derrubou uma presidente. Esse episódio ilustra o poder desestabilizador da faculdade: quando a elite jurídica da USP retira seu apoio a um governo e fundamenta juridicamente sua remoção, o governo cai.[30]
- Paulo Teixeira (Deputado/Ministro): Na esquerda, Teixeira (Mestre pela USP) representa a advocacia engajada, ligada aos movimentos sociais e à defesa dos direitos humanos, uma tradição forte na faculdade desde a resistência à ditadura.[31]
- Ricardo Salles (Deputado): Ex-Ministro do Meio Ambiente, Salles é frequentemente associado à elite paulistana. Embora sua graduação seja Mackenzie, sua atuação política e conexões com o agronegócio e a direita liberal dialogam com setores conservadores que também habitam a USP (como a antiga “Bucha” e setores do Direito Empresarial).[32][33]
O Poder Econômico: Grandes Bancas (Big Law) e a Faria Lima
A conexão entre a SanFran e o poder econômico é cimentada pelas grandes bancas de advocacia.[34][35][36] Estes escritórios não são apenas prestadores de serviço; são arquitetos da economia nacional, estruturando fusões, aquisições, privatizações e a defesa corporativa em grandes litígios.
O mercado jurídico de elite no Brasil é dominado por escritórios fundados e geridos por egressos da USP. Ainda, as bancas recrutam maciçamente na faculdade, mantendo um ciclo vicioso de elite. A atuação dos grandes escritórios em casos de fusões (M&A) e mercado de capitais define as regras do jogo econômico no Brasil.[37] A promoção de sócios formados na casa é uma estratégia deliberada de manter a cultura de excelência e as conexões com o judiciário.[38][39][40]
A Porta Giratória (Revolving Door)
A relação entre essas bancas e o Estado é fluida.
Advocacia -> Governo: Advogados dessas bancas frequentemente assumem cargos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e diretorias jurídicas de estatais, levando a mentalidade de mercado para dentro da regulação pública.
Governo -> Advocacia: Ex-ministros e ex-juízes (como Lewandowski e outros aposentados) são absorvidos por essas bancas como consultores de luxo ou pareceristas, vendendo não apenas conhecimento técnico, mas acesso e influência nas cortes onde antes atuavam. Pierpaolo Bottini, por exemplo, transita entre sua banca boutique (especializada em penal econômico, defendendo grandes empresas na Lava Jato) e a docência na USP, além de ter sido Secretário da Reforma do Judiciário, ilustrando a tríplice coroa: Academia, Governo e Advocacia Privada.[41][42]
Formadores de Opinião e Articuladores
A hegemonia da SanFran não seria completa sem o controle da narrativa. A Faculdade de Direito historicamente forneceu os quadros intelectuais para a grande imprensa. Flávio Galvão, jornalista do O Estado de S. Paulo e advogado, é um exemplo histórico dessa fusão.[43] Hoje, grupos de pesquisa como “Jornalismo, Direito e Liberdade” na USP continuam a formar profissionais que atuam na intersecção entre a notícia e a lei.
A cobertura jurídica da grande mídia (Jota, ConJur, Migalhas) é feita, lida e patrocinada por egressos da USP, criando uma “câmara de eco” onde as teses jurídicas da faculdade são validadas como verdade pública absoluta.
As entidades de classe são extensões políticas da faculdade.
- IASP (Instituto dos Advogados de São Paulo): A mais aristocrática das associações é um feudo uspiano. Presidentes como Ivete Senise Ferreira (primeira mulher diretora da FDUSP) e Ives Gandra Martins usam o IASP para pautar debates nacionais sob uma ótica conservadora-liberal.[44]
- OAB: A Ordem dos Advogados tem em seu panteão de ex-presidentes uma legião de uspianos (Rubens Approbato Machado, José Roberto Batochio). Essas lideranças controlam o Exame de Ordem, a ética profissional e, crucialmente, as listas do Quinto Constitucional, decidindo quem entra nos tribunais pela porta da advocacia.[45]
Tabela 1: Radiografia da Influência no Judiciário (Egressos e Docentes da USP)
| Autoridade | Cargo Atual/Recente | Vínculo USP | Origem da Indicação | Esfera de Influência Principal |
| Alexandre de Moraes | Ministro STF / Pres. TSE | Turma 1990 / Prof. Associado | Michel Temer (PSDB/PMDB) | Constitucional, Eleitoral, Segurança Pública |
| Dias Toffoli | Ministro STF (Ex-Pres.) | Turma 1990 | Lula (PT) | Articulação Política, Judiciário-Legislativo |
| Ricardo Lewandowski | Ministro da Justiça / Ex-STF | Prof. Titular | Lula (PT) | Direitos Fundamentais, Governo Federal |
| Maria Thereza A. Moura | Ministra STJ (Ex-Pres.) | Professora | OAB (Quinto) | Processo Penal, Gestão Judiciária |
| Ricardo V. Bôas Cueva | Ministro STJ | Turma / Pós-Grad. | Dilma Rousseff (STJ) | Direito Privado, Empresarial |
| Og Fernandes | Ministro STJ (Vice-Pres.) | Vínculo Acadêmico/Rede | Lula (STJ) | Penal, Gestão de Precedentes |
Tabela 2: Políticos e Articuladores (O “Partido” da SanFran)
| Nome | Cargo / Função | Formação USP | Papel na Rede |
| Fernando Haddad | Ministro da Fazenda | Direito / Econ / Filo | Ponte PT-Mercado, Gestão Econômica |
| Michel Temer | Ex-Presidente da República | Doutor Constitucional | Articulador do “Centrão”, Constitucionalismo |
| Janaina Paschoal | Ex-Deputada / Jurista | Doutora Penal | Impeachment, Direita Jurídica |
| Paulo Teixeira | Ministro Desenv. Agrário | Mestre | Ala Progressista, Direitos Sociais |
| Miguel Reale Jr. | Ex-Ministro / Prof. Titular | Catedrático | “Reserva Moral” da Advocacia, PSDB Histórico |
| Ives Gandra Martins | Jurista / Pres. Hon. IASP | Emérito (Rede) | Conservadorismo, Tributário, Militares |
Em um movimento estratégico sem precedentes nunca visto antes na história deste país, foi anunciado em 09 de novembro de 2025 que o Ministro do STF Dias Toffoli assumirá a presidência da representação da AAA em Brasília a partir de 2026.[46][47]
A escolha de um Ministro do Supremo para liderar a representação da associação de ex-alunos da Faculdade de Direito da USP na capital federal sinaliza a fusão completa entre a memória institucional da faculdade e o exercício do Poder Judiciário. Toffoli, ex-presidente do STF e egresso da Turma de 1990, atuará como o “embaixador plenipotenciário” das Arcadas junto aos Três Poderes.
Como se não bastasse, houve a formalização da “Parceria STF/USP”, a qual se deu através da assinatura de um acordo de cooperação técnica em 05 de novembro de 2025[48], ou seja, o ápice da institucionalização da influência. O acordo prevê intercâmbio de servidores, realização de pesquisas conjuntas e a utilização da expertise da USP para “aprimorar a prestação jurisdicional”. Na prática, isso torna a USP uma consultora oficial da Suprema Corte.
Este acordo institucionaliza o fluxo de influência. Não se trata mais apenas de “lobby” informal; agora, a produção intelectual da USP (teses, pareceres, pesquisas) tem um canal oficial para fundamentar as decisões da Suprema Corte, fechando o ciclo de poder onde a USP ensina como a lei deve ser lida e o STF aplica essa leitura.
A conclusão óbvia ululante é que a sociedade Burschenschaft (“Bucha”) não é mais secreta, indo muito além do imaginário da faculdade. Com efeito, a rede de proteção da Bucha evoluiu para a atual rede de networking da AAA, onde a ajuda mútua entre ex-alunos é a regra de ouro para nomeações e promoções.
Impérios caem, repúblicas são proclamadas, ditaduras vêm e vão, mas a Faculdade de Direito da USP permanece no centro do poder. Sua hegemonia não é fruto do acaso, mas de uma construção deliberada que une (i) monopólio do saber: a produção da doutrina que os juízes citam; (ii) ocupação de espaço: a colocação estratégica de quadros no STF, STJ, TST e Ministérios; (iii) poder econômico: o controle das grandes bancas que financiam e defendem o capital; e (iv) solidariedade de grupo: a rede de proteção mútua herdada da Bucha e mantida pela Associação de Antigos Alunos.
Para qualquer observador do poder no Brasil, a lição é clara: todos os caminhos levam, invariavelmente, ao Largo de São Francisco.
P. S.: Este artigo foi elaborado com base em pesquisa documental exaustiva, cruzamento de biografias e análise institucional.
[1] Disponível em: A Bucha: sociedade secreta paulista | São Paulo Passado – WordPress.com, <https://saopaulopassado.wordpress.com/2011/06/02/a-bucha-sociedade-secreta-paulista/>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[2] Disponível em: ASSOCIACAO DOS ANTIGOS ALUNOS DA FAC DE DIREITO DA USP – Mapa das OSC, <https://mapaosc.ipea.gov.br/detalhar/599482>. Acesso em: 25 dez. 2015.
[3] Sede: Rua Riachuelo, 185, 4º andar, São Paulo/SP (Anexo à Faculdade).
[4] Disponível em: Onde estudaram os ministros do STF? – Educa Mais Brasil, <https://www.educamaisbrasil.com.br/educacao/carreira/onde-estudaram-os-ministros-do-stf>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[5] Disponível em: Dias Toffoli recebe indicados do novo governo para AGU e SAJ – Supremo Tribunal Federal, <https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/dias-toffoli-recebe-indicados-do-novo-governo-para-agu-e-saj/>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[6] Disponível em: Ministro Dias Toffoli é homenageado em São Paulo – Supremo Tribunal Federal, <https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=474075&ori=1>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[7] Disponível em: Presidente do TRF3 prestigia posse do ministro do STF Dias Toffoli no Conselho Consultivo do Hospital das Clínicas de São Paulo, <https://web.trf3.jus.br/noticias/Noticiar/ExibirNoticia/432884-presidente-do-trf3-prestigia-posse-do-ministro-do>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[8] Disponível em: Em quais faculdades os ministros do STF estudaram? – Quero Bolsa, <https://querobolsa.com.br/revista/onde-os-ministros-do-stf-estudaram>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[9] Disponível em: Alexandre de Moraes – Wikipédia, a enciclopédia livre, <https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_de_Moraes>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[10] Disponível em: Temer indica ministro Alexandre de Moraes para vaga de Teori no STF | G1 – Globo, <https://g1.globo.com/politica/noticia/temer-indica-ministro-alexandre-de-moraes-para-vaga-deixada-por-teori-zavascki-no-stf.ghtml>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[11] Disponível em: Em opção política, Temer indica Moraes para o STF – Senado, <https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/531635/noticia.html?sequence=1&isAllowed=y>, Acesso em: 25 dez. 2025.
[12] Disponível em: Ministros do Supremo Tribunal Federal são homenageados com medalha Armando de Salles Oliveira – Jornal da USP, <https://jornal.usp.br/institucional/ministros-do-supremo-tribunal-federal-sao-homenageados-com-medalha-armando-de-salles-oliveira/>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[13] Disponível em: <https://querobolsa.com.br/revista/onde-os-ministros-do-stf-estudaram>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[14] Disponível em: <https://jornal.usp.br/institucional/ministros-do-supremo-tribunal-federal-sao-homenageados-com-medalha-armando-de-salles-oliveira/>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[15] Disponível em: Preocupação com os mais vulneráveis e com um Judiciário forte marcam posse de Benjamin na presidência do STJ – Faculdade de Direito da USP, <https://direito.usp.br/noticia/efa031152610-preocupacao-com-os-mais-vulneraveis-e-com-um-judiciario-forte-marcam-posse-de-benjamin-na-presidencia-do-stj>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[16] Disponível em: Quem são os ministros Maria Thereza de Assis Moura e Og Fernandes, que assumem o comando do STJ e do CJF nesta quinta-feira (25), <https://www.cjf.jus.br/cjf/noticias/2022/agosto/quem-sao-maria-thereza-de-assis-moura-e-og-fernandes-que-assumem-o-comando-do-stj-nesta-quinta-feira-25>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[17] Disponível em: Maria Thereza Rocha de Assis Moura — Conselho da Justiça Federal, <https://www.cjf.jus.br/cjf/composicoes/maria-thereza-rocha-de-assis-moura>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[18] Disponível em: Termo de Posse do Ministro Og Fernandes – Superior Tribunal de Justiça – AtoM – STJ, <https://arquivocidadao.stj.jus.br/index.php/termo-de-posse-do-min-og-fernandes>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[19] Disponível em: Ministros Antonio Carlos Ferreira e Villas Bôas Cueva tomam posse no TSE como corregedor e membro efetivo – STJ, <https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/2025/18122025-Ministros-Antonio-Carlos-Ferreira-e-Villas-Boas-Cueva-tomam-posse-no-TSE-como-corregedor-e-membro-efetivo.aspx>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[20] Disponível em: Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva passa a compor a Corte Especial – STJ, <https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/2023/19042023-Ministro-Ricardo-Villas-Boas-Cueva-passa-a-compor-a-Corte-Especial.aspx>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[21] Disponível em: Paulo Dias de Moura Ribeiro — Conselho da Justiça Federal, <https://www.cjf.jus.br/cjf/composicoes/paulo-dias-de-moura-ribeiro>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[22] Disponível em: 037ª sessão solene – em – comemoração dos – 140 anos do instituto dos advogados de são paulo – iasp, <https://www.al.sp.gov.br/repositorio/ementario/anexos/20151028-152231-ID_SESSAO=11914.htm>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[23] Disponível em: Ex-Corregedores – TST, <https://www.tst.jus.br/web/corregedoria/ex-corregedores>. Acesso em: 25 de dez. 2025.
[24] Disponível em: Biografias: saiba a trajetória dos ministros da nova direção do TST – YouTube, <https://www.youtube.com/watch?v=GCZ6QWHfiTE>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[25] Disponível em: Conheça os presidentes do Brasil que estudaram na USP, <https://jornal.usp.br/universidade/conheca-os-presidentes-do-brasil-que-estudaram-na-usp/>. Acesso em: 25 de dez. 2025.
[26] Disponível em: Fernando Haddad | Departamento de Ciência Política – DCP USP, <https://dcp.fflch.usp.br/fernando-haddad>. Acesso em: 25 dez. 2025.
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[34] Disponível em: Pinheiro Neto Advogados anuncia quatro novos sócios a partir de 2025 – Migalhas, <https://www.migalhas.com.br/quentes/419314/pinheiro-neto-advogados-anuncia-quatro-novos-socios-a-partir-de-2025>. Acesso em: 25 dez. 2025.
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[36] Disponível em: Machado Meyer Advogados reforça áreas com novos sócios – Migalhas, <https://www.migalhas.com.br/quentes/398964/machado-meyer-advogados-reforca-areas-com-novos-socios>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[37] Disponível em: CEOs do SiqueiraCastro, Machado Meyer, Pinheiro Neto e Demarest falam sobre a situação econômica e investimentos dos escritórios – ANáLISE EDITORIAL, <https://analise.com/noticias/ceos-do-siqueiracastro-machado-meyer-pinheiro-neto-e-demarest-falam-sobre-a-situacao-economica-e-investimentos-dos-escritorios>. Acesso em: 25 dez. 2025.
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[39] Disponível em: Lefosse Advogados incorpora quatro novos sócios e três counsels – LexLatin, <https://br.lexlatin.com/noticias/lefosse-advogados-anuncia-eleicao-de-quatro-novos-socios-e-tres-counsels>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[40] Disponível em: Demarest reforça sua atuação no mercado com cinco novos sócios – Migalhas, <https://www.migalhas.com.br/quentes/397213/demarest-reforca-sua-atuacao-no-mercado-com-cinco-novos-socios>. Acesso em: 25 dez. 2025.
[41] Disponível em: Artigos Conjur – Os livros da vida do criminalista Pierpaolo Bottini, <https://criminalplayer.com.br/artigo-conjur-os-livros-da-vida-do-criminalista-pierpaolo-bottini/>. Acesso em: 25 dez. 2025.
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[43] Disponível em: Flávio Galvão – ArteJornalismo – Caminhos Cruzados, <http://www.mac.usp.br/mac/templates/exposicoes/exposicao_artejornalismo/expo_virtual/virtual8.htm>. Acesso em: 25 dez. 2025.
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[46] Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2025/11/toffoli-presidira-associacao-dos-antigos-alunos-da-faculdade-de-direito-da-usp-no-df.shtml>. Acesso em: 25 dez. 2025.
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